Resmungos da velha mídia

A velha mídia não ficou nada contente com a entrevista coletiva que Lula nos concedeu. Nunca antes na história deste país jornais redigiram textos e textos criticando uma entrevista coletiva concedida a outro veículo de comunicação.

Chegam ao cúmulo de sugerir que Lula deva se limitar a dar entrevistas a seus opositores políticos, devendo manter todos aqueles que de uma forma ou de outra seja simpáticos a seu governo em profundo ostracismo. Do contrário, a entrevista será automaticamente rotulada de “chapa-branca”, ainda que as perguntas demonstrem claramente o contrário.

Esta crítica, porém, chamou-me a atenção, pois foi dirigida diretamente à minha pergunta:

Nas entrevistas tradicionais, em que não há seleção ideológica, não se vê, por exemplo, o entrevistado precisar corrigir o entrevistador que estranha o fato de as indicações ao Supremo Tribunal Federal não terem deixado a Corte com “a cara do governo Lula”.

“Graças a Deus o Supremo não ficou com a cara do governo”, respondeu o presidente a um rapaz que se identificou como representantes de um “blog jurídico”, ensinando-lhe, em seguida, algo sobre a independência dos poderes inerente à República.

Esta senhora, que se identifica como jornalista de um grande jornal, parece não ter se dado conta de que eu fiz uma pergunta e não uma afirmação ao presidente. Daí por que o presidente não me corrigiu, mas respondeu à indagação que lhe foi feita. Talvez por vício de sua própria formação, a senhora jornalista pressuponha que toda pergunta é dirigida para que seja dada uma determinada resposta. Eu, porém, que sou um mero amador, não tive a intenção de que o presidente concordasse ou discordasse da minha pergunta.

A senhora jornalista, porém, na sua ânsia de criticar, acabou cometendo um equívoco grosseiro ao alegar que uma nomeação ideológica de ministros do STF feriria a “independência dos poderes inerente à república”. A questão não tem absolutamente nada a ver com separação de poderes, pois é a própria constituição que atribui poderes ao presidente da república para nomear os ministros do STF. O presidente é livre para indicar o ministro do STF, pelos critérios políticos que bem entender. A interferência política no STF, ao contrário do que parece crer a senhora jornalista, não é um vício do sistema, mas é a essência do próprio modelo constitucional adotado.

É o tipo de crítica que só se lê mesmo nos grandes jornais que se julgam especialistas em generalidades.

Minha pergunta para Lula

A partir de 1 hora, 20 minutos e 46 segundos do vídeo.

Secretário de Imprensa, Nelson Breve: Agora o Túlio Vianna, o blog do Túlio Vianna, de Minas Gerais.

Túlio Vianna: Bom dia, Presidente.

Presidente: Bom dia (incompreensível).

Túlio Vianna: A minha pergunta é uma pergunta jurídica, porque o meu blog é jurídico, e está relacionada às suas indicações dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Ao longo do seu governo, o senhor indicou seis dos dez ministros hoje em atuação no Supremo, e há um certo sentimento entre alguns juristas de esquerda de que esse Supremo Tribunal, essa parte do Supremo Tribunal indicada pelo senhor não é tão de esquerda assim, talvez até por questões religiosas de muitos desses ministros, que são praticantes religiosos.

A minha pergunta é: O senhor disse que o Presidente não pode tudo. Às vezes, as pessoas acham que o Presidente pode tudo, e ele não pode tudo. Esse Supremo é de fato a cara do… esses indicados para o Supremo são os ministros dos seus sonhos, quer dizer, são a cara do governo Lula, ou no fundo eles são uma composição de fatores políticos, de expressões políticas que levariam a criar esse Supremo? E uma última pergunta seria: O novo ministro a ser indicado, será que ele tem uma cara diferente, mais favorável aí a questões como aborto, direitos dos homossexuais, que estariam menos relacionados aí, menos ligados, digamos assim, às posições da Igreja Católica? Obrigado.

Presidente: Ô Túlio, graças a Deus, o Supremo não é a minha cara. Porque, se fosse a minha cara, nós estaríamos repetindo o rei, estaríamos repetindo os erros do tempo do império, estaríamos repetindo erro do Poder Legislativo da Bahia, quando o Antônio Carlos Magalhães era governador, em que eram os amigos que eram escolhidos para as coisas, em que a imprensa dizia sempre que ele jantava, almoçava com desembargadores.

Veja, eu, só para você ter ideia, das indicações que eu fiz, o primeiro cidadão que eu indiquei foi o companheiro Britto, e foi uma indicação de dois grandes juristas de esquerda deste país, Fábio Comparato e Bandeira de Mello. Foi o primeiro. Depois, eu queria indicar um negro. Quando a gente fala que não tem preconceito, tem; quando não tem discriminação racial no Brasil, tem. Porque não foi fácil encontrar um negro que estivesse à altura de a gente poder indicar para a Suprema Corte, e, quando eu indiquei o Joaquim, tinha denúncias de problemas com o Joaquim, esperei quase seis meses para indicar o Joaquim. Eu não conhecia o Joaquim. Eu conheci o Joaquim quando eu o indiquei. E adotei como hábito… Eles estão todos aí, vocês podem perguntar. Certamente, houve épocas no Brasil em que o Presidente, para indicar o cara, chamava o cara e falava: “Eu vou te indicar, mas você tem que votar contra mim… você tem que votar a meu favor”. Eu não faço política assim. Eu não conhecia a Cármen; eu conhecia o Lewandowski, de São Bernardo do Campo, mas não tinha nenhuma relação com ele; a minha mulher, Marisa, tinha muita relação com a dona Karla [Karolina], que é a mãe dele. Quem me indicou o Lewandowski foram, inclusive, os companheiros do Sindicato, que mostraram o quanto ele era competente. O único deles que eu tinha amizade era o Eros Grau, que tinha trabalhado com o Tarso Genro no Instituto Cidadania, tinha ajudado lá. E todos companheiros com a visão progressista. O Peluso eu não conhecia, que era desembargador em São Paulo. A… o que mais?

__________: (incompreensível)

Presidente: Ah, o Direito, o Direito [Carlos Alberto Menezes Direito], para mim foi uma surpresa extraordinária porque quando eu o indiquei, muita gente da Igreja católica, da ala esquerda tinha medo, porque eu estava indicando um cara de direita, e o comportamento dele foi impecável durante todo o tempo em que ele esteve na Suprema Corte. Foi uma pena que ele tenha morrido tão cedo. Então, o Presidente da República, isso é uma coisa, Túlio, sagrada, porque vale para mim e vale para quem vier para a Presidência. A gente não pode indicar as pessoas pensando na próxima votação na Suprema Corte. A gente não pode indicar uma pessoa pensando nos processos que vai ter contra o presidente da República. Você tem que indicar a pessoa pensando o seguinte: se a pessoa é ou não competente para exercer aquele cargo. E tem gente de direita, gente de esquerda. Você não sabe a quantidade de quadros que tem querendo ser indicados para essa próxima vaga. Por que eu não indiquei? Primeiro, porque a gente tinha o processo eleitoral. Eu falei: bom, eu vou esperar o processo eleitoral. Depois da eleição, eu vou discutir com quem ganhar as eleições a indicação do próximo membro da Suprema Corte. Quis Deus que fosse a Dilma. Então, eu agora tenho que decidir se eu indico ele agora e já conversei com o presidente Sarney, o Congresso vota até o dia 17, e nós só temos que ver se é possível votar até o dia 17. Se não for possível votar até o dia 17, eu prefiro deixar para a companheira Dilma indicar, porque o Legislativo também vai entrar em férias. Você sabe que entra em férias agora em dezembro, e volta em janeiro ou fevereiro. Então, a Dilma já pode indicar. Nós vamos ter um Senado novo… E o companheiro que vai ser indicado agora, ele tem muita responsabilidade, muita, muita! Ele vai ter que discutir a Ficha Limpa, ele é o voto de desempate; ele, possivelmente, será o primeiro voto na questão do mensalão, quando for votar, se não tiver outro novo; e ele terá que votar o caso do Battisti também, a decisão.

Então, tudo isso, eu não tenho pressa porque não tem nada que seja gravíssimo para ser votado. E eu quero acertar com a Dilma, tranquilamente, dizer: Dilma, eu não vou indicar um cara, agora, da minha vontade. Você vai ser a presidente, você vai conviver por quatro anos aí, é o seguinte, você tem alguém que você queira indicar, me peça que eu indicarei exatamente… ou vamos construir juntos o nome, em uma alternativa a dois, com 50% de responsabilidade de cada um. E, sinceramente, eu faria isso se o Serra tivesse ganhado, eu ia chamá-lo também para discutir o próximo nome, porque é o jeito de você ser republicano e você poder andar de cabeça erguida, mesmo diante dos teus adversários. Então, a gente não escolhe, viu, Túlio, essa é uma coisa importante. Peço a Deus que seja assim sempre. A gente não escolhe, por interesses menores alguém para a Suprema Corte. O jogo de interesses… a pressão para indicar gente lá para a Suprema Corte é maior do que a para indicar ministro. Mas a gente não toma aqui… eu tomo a decisão tranquilo, eu sento com o meu ministro da Justiça, eu sento com o advogado-geral da União, eu sento com a Casa Civil, eu consulto alguns amigos, eu tenho amigos que eu consulto, eu tenho amigos para quem eu telefono: olha, está aqui, estão o Cloaca e o Franklin aqui, quem você quer que eu indique; está o Túlio e não sei quem, quem você quer que eu indique, quem você acha que é melhor, quem é que tem mais competência, quem é… Assim, você veja, o Ministério Público. Eu tomei decisão, aí é uma coisa da minha consciência, eu indiquei o Ministério Público, em todo o meu mandato, o primeiro da lista. Eu nem conhecia, meu filho, nem conhecia, e não queria conhecer, não queria conhecer. Indicava o primeiro da lista. O Antônio Fernando, eu poderia ter trocado ele, eu reindiquei ele na semana em que ele apresentou a denúncia contra gente do governo. Vai manter. Por quê? Porque eu faço consulta e as pessoas entendem: “Não, olha, mantém”. Nunca pedi nada a eles, não peço, não pedi antes. A única coisa que eu peço, no meu discurso de posse, é o seguinte: gente, quanto mais força vocês tiverem, mais responsabilidade vocês têm que ter. A coisa que mais me magoa é alguém ser acusado de ladrão não sendo ladrão, é a coisa que mais me magoa. Eu acho que quando você acusa uma pessoa você tem que ter provas. E se der errado, você peça desculpas. Porque no Brasil parece que é feio pedir desculpas. Eu me lembro da Escola Base, de São Paulo, que é um marco. Então, eu… olhe, gente, eu sofri, não me queixo, mas apenas constatando, quando eu deixar a Presidência eu vou reler, porque vocês sabem que eu parei de ver revista, parei de ver jornal. A raiva deles é que eu não os leio. Então, pelo fato de não os ler, eu não fico nervoso. Senão, você… mas podem ficar certos de que eu trabalho com muita informação, mas não preciso ler muitas coisas que eles escrevem.

_________: Dá azia…

Presidente: Mas eu vou reler muita coisa porque eu quero saber a quantidade de leviandades, de inverdades que foram ditas a meu respeito, quantas coisas que não foram ditas, apenas para conhecimento, e gravar na história do Brasil, porque não foi fácil o jogo, não. Não é fácil, sobretudo quando você não quer se curvar, sobretudo quando você quer ter independência no teu comportamento. Agora, para mim… eu estou tranquilo porque todos eles ganharam muito dinheiro no meu governo, nunca ganharam tanto dinheiro [como] no meu governo, nem bancos, nem empresários, nem construtoras. Os trabalhadores melhoraram um pouco, os pobres ficaram menos pobres, mas ninguém pode se queixar, neste país, ninguém pode, muito menos a mídia. Algumas delas estavam quase quebradas quando eu cheguei ao governo. Eu acho que é importante, estão aí, vamos continuar trabalhando. A única coisa que eu peço é a seguinte: seriedade, seriedade, seriedade, que é o que pode fazer a gente andar de cabeça erguida neste país e no mundo.

FONTE: Blog do Planalto