O riso como arma dos covardes

A história é sempre a mesma. Um engraçadinho faz uma piadinha/brincadeira politicamente incorreta, alguém reclama indignado e a resposta vem da ponta da língua do idiota: “Era só uma brincadeira! Você não tem senso de humor?”

Esta resposta pré-fabricada que busca eximir de culpa o piadista por qualquer imbecilidade dita, nada mais é do que um truísmo que visa silenciar o debate sobre o preconceito expresso na “brincadeira”. Afirmar que o que foi dito era uma uma brincadeira é uma verdade óbvia, mas o simples fato de ser uma brincadeira não isenta o palhaço da responsabilidade pelo que foi dito.

O riso nem sempre é a arma de contestação social expressa no provérbio castigat ridendo mores (castiga os costumes rindo), utilizado com frequência como emblema de vários teatros. Este provérbio, cunhado por Jean de Santeuil no século XVII, a propósito da máscara de Arlequim, tem um antecedente muito mais revelador em Horácio que, no ínicio de suas Sátiras (1,1,24 s.), indaga: Ridentem dicere verum / quid vetat? (rindo se diz a verdade / quem impedirá?).

O riso nem sempre é um instrumento de crítica social. Muita vez, o riso é tão-somente um instrumento para se afirmar algo que se teme dizer a sério. Quem impedirá?

Sírio Possenti, grande estudioso das piadas como manifestação cultural, afirma que:

O humor nem sempre é progressista. O que caracteriza o humor é muito provavelmente o fato de que ele permite dizer alguma coisa mais ou menos proibida, mas não necessariamente crítica, no sentido corrente, isto é, revolucionária, contrária aos costumes arraigados e prejudiciais. O humor pode ser extremamente reacionário, quando é uma forma de manifestação de um discurso veiculador de preconceitos, caso em que acaba sendo contrário a costumes que são, de alguma forma, bons ou, pelo menos, razoáveis, civilizados, como os tendentes ao igualitarismo, sem dúvida melhores que os seus contrários.
POSSENTI, Sírio. Os humores da língua: análises linguísticas de piadas. Campinas: Mercado das Letras, 1998. p.49.

Então quando alguém se vale do truísmo “Era só uma brincadeira! Você não tem senso de humor?”, o faz no intuito de tentar persistir afirmando seus preconceitos sem ser contestado, pois amparado pelo manto covarde do riso.

Sim, eu tenho senso de humor, mas não sei rir da desgraça alheia. Não sei rir da escravidão, dos campos de concentração, da violência doméstica, dos espancamentos de homossexuais, nem de qualquer piada ou brincadeira que direta ou indiretamente faça troça da submissão de um grupo social por outro.

Se ser moderninho, divertido e criativo é zombar de minorias políticas, eu prefiro ser o babaca sem senso de humor que denuncia estes covardes que se escudam no riso para manifestar seus preconceitos.

A genialidade do humor está em zombar dos que oprimem e mostrar o quão ridículo são seus preconceitos. Riamos da classe média e de seus valores pequenos burgueses, dos homófobos posando de machões, dos machistas tomando inevitáveis foras de mulheres inteligentes e, principalmente, da indignação de muitos brancos em ver um negro na presidência do país mais rico do mundo.

Riamos de Danilo Gentili tentando justificar sua piada racista, com mais preconceito e com um post racista, achando que estava sendo irônico no título, porque idiotas são os politicamente corretos.

Riamos da vergonha que os preconceituosos têm de se assumirem preconceituosos e do onipresente uso do truísmo “foi só uma brincadeira” como um saco de papel onde escondem a cara da execração de gente com senso crítico.

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Atualização em 28/7/2009 às 9h30:  Quem acha  impossível ser engraçado zoando o racismo, veja o vídeo do Chris Rock citado no comentário da Talita.

Atualização em 1/8/2009 às 11h:30: Excelente artigo acadêmico sobre o que discutimos aqui: A mediação do riso na expressão e consolidação racismo no Brasil. (via @maria_fro)

Carta aberta ao Marcelo Tas

Prezado Marcelo Tas,

Surpreendi-me ontem lendo em seu Twitter o seu seguinte comentário:

Olha a forma “democrática” como atuam os grevistas da USP. PM neles!

Ao visitar seu blog, deparei-me então com um vídeo, seguido de uma nova incitação sua ao uso da força policial contra os manifestantes na USP:

Depois de ver esse video- gravado hoje em frente a ECA, Escola de Comunicações e Artes- que mostra como os “grevistas” da USP lidam com estudantes que discordam da opinião deles, não tenho dúvida: PM nesses vagabundos.

Ao ler tais manifestações suas, manifestei meu imediato repúdio e sugeri aos meus seguidores que deixassem de seguir seu Twitter em sinal de protesto.

Hoje de manhã, voltei ao seu blog e tomei conhecimento de sua retratação parcial, ao menos para retirar o adjetivo com o qual qualifica os estudantes e grevistas, deixando-lhes tão-somente a porrada da polícia e as bombas de gás lacrimogêneo:

Então escrevi com o fígado uma expressão- “PM nesses vagabundos”- devolvendo raiva com raiva para cima dos trabalhadores e estudantes da USP em greve, o que não ajuda em nada. Por isso, alterei hoje o final do post retirando o “vagabundos”, um julgamento que não é do meu estilo.

Meu caro, Marcelo, lamento lhe informar, mas seu sucesso com o público traz consigo grandes responsabilidades e uma delas é jamais escrever com o fígado.

Como muito bem comentou ontem o Júlio Valentim no Twitter:

uma coisa é o @marcelotas bancar o facista pra uma rodinha de amigos dele, a outra é falar uma besteira dessa pra quase 100 mil pessoas

Comentários sobre temas de tão grave repercussão, sem uma reflexão cuidadosa, não são opiniões, mas palpites e, se você insistir em emiti-los, ainda que continue sendo seguido por uma legião de Barts Simpsons, perderá toda a sua credibilidade com seus seguidores com mais de dois neurônios.

Não vou repetir aqui porque é uma irresponsabilidade mandar a polícia a um campus universitário, mas gostaria de pedir-lhe que refletisse melhor sobre seu conceito de democracia, pois ele é simplório demais para quem se pretende jornalista.

Você ao menos se deu ao trabalho de indagar-se se a presença da polícia no campus da USP teve algum fundamento legal? Como professor de direito, posso lhe afirmar que há fortes indícios de que não tenha e, se você se propõe a ser um jornalista e formador de opinião, deveria se esforçar para refletir primeiro e escrever depois.

Você não precisa pensar conosco para não nos desapontar. Você precisa tão-somente pensar antes de escrever.

Se você apóia tanto o uso da força policial na solução de conflitos, se no futuro a PM for chamada para intervir nas lhanas reportagens do CQC, você, por certo, não poderá reclamar.

Por fim, não venha insinuar que uma campanha de #unfollowmarcelotas seja antidemocrática. Para citar a velha frase atribuída a Voltaire: “Não concordo com o que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-lo”. Mas defenderei também o direito do público de ser bem informado.

Um boicote a seu Twitter não é para fazer-lhe calar. É para fazer-lhe refletir sobre o que dizes para dizer melhor.

Evidentemente a maioria do seu público, por certo, é de fãs que dirão “amém” às suas palavras e, ainda por cima, irão retuita-las. Quando discordam, optam por manterem o silêncio obsequioso da omissão.
Democracia, porém, implica no direito de falar o que quer falar, mas sujeitar-se às críticas, pois como bem disse a Denise Arcoverde:

#unfollow nao é calar ninguem. É exercitar o NOSSO saudável direito de protestar contra autoritarismo e não ouvir mais outra asneira.

Tão saudável, que bem ou mal, lhe fez repensar e retratar-se parcialmente de seu discurso autoritário contra os estudantes da USP.

Finalizo na esperança de que você reflita melhor sobre este episódio, senão para mudar de idéia sobre a autoritária presença da polícia militar em um campus universitário, ao menos para não mais escrever com o fígado, pois seus milhares de Barts Simpsons podem adotar seu sermão como verdade, a ponto de retuitá-lo, mas suas poucas centenas de leitores com senso crítico podem simplesmente clicar em “unfollow”.

Cabe somente a você definir que tipo de seguidores quer ter e que tipo de opinião quer formar.

Saudações democráticas!

Túlio Vianna