Do Virtual ao Hiper-real

A história de que o ditador norte-coreano Kim Jong-un teria obrigado a todos os universitários de seu país a adotarem o seu corte de cabelo espalhou-se rápido não só pela Internet, mas pelos principais jornais do mundo. A Internet também contou a história de um professor que teria ameaçado a turma barulhenta com spoilers do seriado “Game of Thrones” e de uma noiva chinesa que teria errado o quarto na noite de núpcias e feito sexo com o padrinho da cerimônia.

Nas mesmas redes sociais e jornais contava-se também as histórias de uma jovem que morreu após tirar uma selfie dirigindo a 170km/h, de um hotel de luxo que contruíra uma favela para os hóspedes e dos sauditas que culpavam o rímel pelo aumento dos casos de assédio sexual em seu país.

Não é fácil discernir entre o real e o imaginário na Internet. O universo virtual concebido para ser uma extensão da realidade passou a abrigar também paródias desta realidade e hoje não há mais fronteiras rígidas entre o virtual e o surreal.

O virtual foi criado como uma extensão da realidade no computador, mas aos poucos a realidade está se tornando uma extensão da Internet no mundo físico. A Internet já não é mais uma mera narrativa da realidade, mas o mundo real está se tornando um teatro destas narrativas criadas na Internet.

Pessoas interpretam personagens de si mesmas em “reality shows” individuais transmitidos pelas redes sociais. Por meio de seus smartphones transmitem cada passo de suas vidas, fotografando-se no espelho antes de saírem de casa, fazendo check-ins nos lugares que frequentam, fotografando suas refeições e os amigos com quem se encontram. O prazer da experiência vai aos poucos cedendo espaço ao prazer da narrativa.

E nestas mesmas redes sociais em que perfis “reais” narram cotidianos idealizados surgem os perfis “fakes” que são perfis falsos criados para emitir opiniões que não poderiam ser expressas normalmente em público sem algum prejuízo à reputação de seus criadores. Os “fakes” não são meras simulações de perfis reais, mas simulacros com personalidade própria. Os perfis “fake” são falsos por definição, mas as opiniões expressas por eles acabam sendo mais sinceras que aquelas expressas no perfil “real”. É o que o filósofo francês Jean Baudrillard denominou de hiper-realidade.

Em um mundo de realidades milimetricamente construídas para serem exibidas na Internet, é nos comentários anônimos dos portais de Internet que a hiper-realidade se manifesta. Basta passar os olhos em quaisquer caixas de comentários para constatarmos o quão intolerante, preconceituosa e agressiva nossa sociedade é. Desnudados de seus avatares construídos para impressonarem seus amigos, o lado mais odioso das pessoas se revela escudado no anonimato dos “fakes”.

E são estes perfis “fakes” notoriamente racistas, machistas, homofóbicos e elitistas os autores de muitos dos boatos que circulam na rede como se fossem notícias. Recentemente um boato no Facebook levou ao linchamento de Fabiane Maria de Jesus, acusada erroneamente de sequestrar crianças e praticar magia negra no Guarujá. A dissonância cognitiva de seus algozes não lhes permitiu ver o quão imprudente é agredir alguém por conta de uma história postada em uma rede social. Aos olhos de quem as lê estas narrativas são hiper-reais e, como tais, mais convincentes que a própria realidade.

Há tempos as revistas que anunciam fotos de mulheres nuas entregam a seus leitores apenas pinturas realizadas no Photoshop. Para um adolescente que nunca viu uma mulher nua, porém, aquelas fotos são hiper-reais e dificilmente alguém conseguirá convencê-lo do contrário. Somente um choque de realidade ao vislumbrar pela primeira vez a nudez em carne e osso, com seus pêlos e poros e com suas assimetrias e singularidades poderá lhe trazer de volta ao deserto do real.

As redes sociais estão cheias de narrativas hiper-reais. Algumas delas mais ou menos inofensivas como a do corte de cabelo dos norte-coreanos. Outras mortais, como a de acusações de sequestro de crianças e de prática de magia negra.

É pouco provável que a curto prazo as pessoas “caiam na real” e parem de acreditar ingenuamente em tudo o que lêem na Internet. É preciso um investimento sério em políticas públicas de educação para ensinar algo que deveria ser óbvio a todos: não acreditar em tudo que se lê, sem verificar as fontes. E isso vale não só para a Internet, mas também para jornais, revistas, televisão, livros científicos ou qualquer outro texto que pretenda descrever fatos.

Até lá, as eleições deste ano prometem transformar as redes sociais em arenas políticas, dando ensejo a um festival de hiper-realidade, que pode ser decisiva não só no resultado das eleições, mas também no discurso dos candidatos e na pauta política dos próximos 4 anos.

Mais do que nunca a Internet vai deixando de ter um papel virtual e vai se impondo como a protagonista hiper-real da história do nosso tempo.

PUBLICADO ORIGINALMENTE NO JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO DE 18 DE MAIO DE 2014.

Anúncios