Os neoluddistas

Publicado no Jornal do Brasil deste domingo:

No início do século XIX, trabalhadores ingleses revoltaram-se com a invenção da indústria têxtil, pois julgavam que esta nova tecnologia seria a responsável pela perda de milhares de empregos, com a substituição do trabalho braçal humano pelas máquinas. Sob a liderança de Ned Ludd, invadiram fábricas, destruíram máquinas e deixaram registrado na história o equívoco que é lutar contra uma inevitável revolução tecnológica. O movimento ficou conhecido como luddismo.

No início do século XXI, não são mais os trabalhadores humildes que se insurgem contra uma ameaça a seu ganha-pão. Ironia da história: agora é a vez da indústria se revoltar contra o homem, por julgar que este poderá lhe quebrar, não mais no sentido literal, mas econômico.

A história se repete, mas os personagens mudam. Eis que surgem os neoluddistas.

Os neoluddistas são empresários da indústria cultural que bradam raivosos na defesa de seus lucros: “estamos perdendo milhões por causa da Internet”, “é preciso combater a pirataria”, “se os downloads ilegais não acabarem, os artistas vão parar de produzir”.

Os neoluddistas alegam que perdem milhões por ano com a pirataria, por terem vendido menos que no ano anterior. Não percebem que o problema não está na pirataria, mas no seu modelo de negócios vetusto que insiste em vender música em Cds em caixinhas de acrílico, quando os Cd players há muito já foram substituídos por MP3 players.

Os neoluddistas menosprezam os artistas que disponibilizam suas músicas para download gratuito em suas páginas na Internet e são remunerados com o patrocínio de empresas que exibem publicidade enquanto as músicas são baixadas. Sua ganância é tamanha que preferem insistir no erro a buscarem alternativas de negócios.

Os neoluddistas são dados à chantagem emocional barata. Imploram a seus fãs que não baixem músicas pela Internet, pois precisam manter seus castelos e suas limusines. Querem que o fã que ganha um salário mínimo compre o Cd para “ajudar o artista”.

Os neoluddistas têm memória fraca. Esquecem-se de que mais de 90% do lucro com a venda dos Cds vai para as gravadoras e que a maioria absoluta dos artistas vive do cachê de seus shows e, para estes, nada vai mudar.

Os neoluddistas investem fortunas em campanhas publicitárias para tentar convencer as pessoas que copiar um Cd é tão reprovável quanto furtar um carro ou uma bolsa. Não percebem – ou fingem que não percebem – que no furto a vítima perde a propriedade de seu carro e de sua bolsa, mas na cópia nada se perde.

Os neoluddistas seriam capazes de crucificar Jesus Cristo por multiplicar pães, pois afinal – pensarão eles – há nesta conduta uma clara violação aos direitos autorais do padeiro que investiu fortunas na criação da receita.

Os neoluddistas são personagens que de tão anacrônicos seriam caricatos, não fosse o poder econômico que têm e que usam para manter a criminalização da livre distribuição da cultura por meio da Internet.

Os neoluddistas estão transformando fãs em criminosos.

 

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Atualização em 10/11/2009, às 15h40: O amigo @joaosergio alertou-me para uma curiosa coincidência: o evangelho do dia 26 de julho de 2009, data da publicação deste texto, é justamente este que trata da multiplicação dos pães.

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13 thoughts on “Os neoluddistas”

  1. É isso aí, Túlio, gostei do resgate do termo luddista. Por aí a gente vê que não existe “sinceridade” nessas reclamações e, principalmente, existe é muita burrice e preguiça. Ou má fé. Ou tudo isso e mais alguma coisa.

  2. Túlio, mais com artifícios do senso comum do que técnicos, suspeito que os Neoluddistas, como você se refere no excelente texto, tentam resgatar do naufrágio um modelo de negócio que já está no passado, de uma era pré-internet. É impressionante também como conseguem fazer com que artistas (e também escritores) fiquem reféns deste modelo antiquado. Talvez pelo fato dos artistas não perceberem que já estão exorcizados das gravadoras, editoras e afins. De fato, talvez grande parte deles desconhecem ou mal exploram a potencialidade de divulgação e distribuição da internet. Fico surpreso sempre que entro em um site de uma banda ou cantor e não é possível baixar dele a última produção, terei que comprar um cd na era do “Download”? Acredito que esta insistência burra não lhes garantirá de fato os castelos e as limusines.

  3. Bom texto, Túlio, mas a comparação com os luddistas, na minha opinião, não procede.

    Os luddistas formavam um movimento social, que lutava por direitos e melhores condições de trabalho. Reivindicavam que a mecanização do trabalho agravaria estas condições. Não era só um movimento de intolerância, ou ignorante ao progresso, mas também de reivindicação para que eles recebessem condições de se adequar a estas mudanças.

    Mais apropriado seria comparar com fatos recentes de trabalhadores que, por exemplo, foram contra a mecanização de postos de gasolina no Brasil, seguindo o modelo europeu/americano; ou ainda, contra a implantação das catracas automáticas em ônibus, eliminando a necessidade do cobrador.

    No caso da pirataria, uma analogia mais adequada seria com a invenção da imprensa por Gutenberg, e que aos poucos foi desafiando o controle da difusão da informação imposto pela Igreja. Assim, por exemplo, da mesma forma que hoje as gravadoras processam vergonhosamente quem fere suas ‘regras’, na época era queimado no fogo da inquisição.

    O interessante é que, em ambos os casos e ao contrário do luddismo, não há um movimento organizado, pró-ativamente desafiando o modelo de ‘controle’ das gravadoras. Como no caso da imprensa de Gutenberg, então, a queda do modelo anterior foi ocorrendo gradativamente e a medida em que mais pessoas foram percebendo os benefícios do novo modelo, e a medida em que as tecnologias foram se desenvolvendo para se adequar a elas.

  4. Olá, Tulio.

    Sou leitora do blog e sua seguidora no twitter.

    Tenho formação jurídica e hoje estudo jornalismo. A questão da pirataria acaba sendo muito discutida numa faculdade de comunicação, especialmente quando os alunos nunca conheceram discos de vinil ou fitas k7. O mundo da música, pros meus colegas, é em MP3. Eu, que sou da velha guarda, ainda me assombro com as mudanças.

    Não consigo vislumbrar uma saída para a questão do direito autoral. Creio que as gravadoras devam ser, sim, ressarcidas pelos gastos com produção e publicidade, mas entendo que o modelo de negócio hoje existente está falido.

    Penso também que criminalizar o compartilhamento de arquivos online é de uma estupidez sem tamanho.

    Defendo as gravadoras (não com este modelo de negócio), defendo os artistas, defendo o consumidor. Se eu soubesse a saída para esta relação complicada, estaria rica!

    Um abraço!

  5. Oi Túlio
    Os trabalhadores não tinham dinheiro en compravam políticos…
    Então, ao cometer o erro histórico de defender modelos ultrapassados de negócios, simplesmente foram suprimidos.
    Mexer com a indústria editorial, fonográfica e cinematográfica é completamente diferente.
    Há dinheiro aos montes e muitos advogados e políticos querendo ser comprados…

  6. Excelente texto, Tulio, muito bem colocada inclusive a citação à Jesus, impossível não rir, ainda que seja um fato lamentável.

    Em tempo de convergência algumas indústrias teimam em se manter no passado, sem compreender que não adianta tentar frear a (r)evolução das novas mídias e a combinação do “antigo” com o novo, moderno.

    Ou adotam um modelo de negócios compatível ou as indústrias vão sofrer.

    tsavkko.blogspot.com

  7. Apesar de toda a discussão em torno do assunto, e o constante espernear das gravadoras, não me importo muito com esse tema, por um simples motivo:

    Não é possível agir contra o avanço da tecnologia e vencer.

    Da mesma forma que os luditas originais falharam e hoje não passam de uma nota de rodapé na história da revolução industrial, as gravadoras seguirão o mesmo caminho na história da produção e distribuição musical.

  8. Muito bom este seu artigo, Túlio. Por essas e outras que adorei a iniciativa do Radiohead em 2007. E sim, paguei pelo download de “In Rainbows” o valor que considerei justo pela obra. Não me arrependo pois o CD é muito bom.

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