Carta aberta ao Marcelo Tas

Prezado Marcelo Tas,

Surpreendi-me ontem lendo em seu Twitter o seu seguinte comentário:

Olha a forma “democrática” como atuam os grevistas da USP. PM neles!

Ao visitar seu blog, deparei-me então com um vídeo, seguido de uma nova incitação sua ao uso da força policial contra os manifestantes na USP:

Depois de ver esse video- gravado hoje em frente a ECA, Escola de Comunicações e Artes- que mostra como os “grevistas” da USP lidam com estudantes que discordam da opinião deles, não tenho dúvida: PM nesses vagabundos.

Ao ler tais manifestações suas, manifestei meu imediato repúdio e sugeri aos meus seguidores que deixassem de seguir seu Twitter em sinal de protesto.

Hoje de manhã, voltei ao seu blog e tomei conhecimento de sua retratação parcial, ao menos para retirar o adjetivo com o qual qualifica os estudantes e grevistas, deixando-lhes tão-somente a porrada da polícia e as bombas de gás lacrimogêneo:

Então escrevi com o fígado uma expressão- “PM nesses vagabundos”- devolvendo raiva com raiva para cima dos trabalhadores e estudantes da USP em greve, o que não ajuda em nada. Por isso, alterei hoje o final do post retirando o “vagabundos”, um julgamento que não é do meu estilo.

Meu caro, Marcelo, lamento lhe informar, mas seu sucesso com o público traz consigo grandes responsabilidades e uma delas é jamais escrever com o fígado.

Como muito bem comentou ontem o Júlio Valentim no Twitter:

uma coisa é o @marcelotas bancar o facista pra uma rodinha de amigos dele, a outra é falar uma besteira dessa pra quase 100 mil pessoas

Comentários sobre temas de tão grave repercussão, sem uma reflexão cuidadosa, não são opiniões, mas palpites e, se você insistir em emiti-los, ainda que continue sendo seguido por uma legião de Barts Simpsons, perderá toda a sua credibilidade com seus seguidores com mais de dois neurônios.

Não vou repetir aqui porque é uma irresponsabilidade mandar a polícia a um campus universitário, mas gostaria de pedir-lhe que refletisse melhor sobre seu conceito de democracia, pois ele é simplório demais para quem se pretende jornalista.

Você ao menos se deu ao trabalho de indagar-se se a presença da polícia no campus da USP teve algum fundamento legal? Como professor de direito, posso lhe afirmar que há fortes indícios de que não tenha e, se você se propõe a ser um jornalista e formador de opinião, deveria se esforçar para refletir primeiro e escrever depois.

Você não precisa pensar conosco para não nos desapontar. Você precisa tão-somente pensar antes de escrever.

Se você apóia tanto o uso da força policial na solução de conflitos, se no futuro a PM for chamada para intervir nas lhanas reportagens do CQC, você, por certo, não poderá reclamar.

Por fim, não venha insinuar que uma campanha de #unfollowmarcelotas seja antidemocrática. Para citar a velha frase atribuída a Voltaire: “Não concordo com o que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-lo”. Mas defenderei também o direito do público de ser bem informado.

Um boicote a seu Twitter não é para fazer-lhe calar. É para fazer-lhe refletir sobre o que dizes para dizer melhor.

Evidentemente a maioria do seu público, por certo, é de fãs que dirão “amém” às suas palavras e, ainda por cima, irão retuita-las. Quando discordam, optam por manterem o silêncio obsequioso da omissão.
Democracia, porém, implica no direito de falar o que quer falar, mas sujeitar-se às críticas, pois como bem disse a Denise Arcoverde:

#unfollow nao é calar ninguem. É exercitar o NOSSO saudável direito de protestar contra autoritarismo e não ouvir mais outra asneira.

Tão saudável, que bem ou mal, lhe fez repensar e retratar-se parcialmente de seu discurso autoritário contra os estudantes da USP.

Finalizo na esperança de que você reflita melhor sobre este episódio, senão para mudar de idéia sobre a autoritária presença da polícia militar em um campus universitário, ao menos para não mais escrever com o fígado, pois seus milhares de Barts Simpsons podem adotar seu sermão como verdade, a ponto de retuitá-lo, mas suas poucas centenas de leitores com senso crítico podem simplesmente clicar em “unfollow”.

Cabe somente a você definir que tipo de seguidores quer ter e que tipo de opinião quer formar.

Saudações democráticas!

Túlio Vianna

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41 thoughts on “Carta aberta ao Marcelo Tas”

  1. Nem fiquei sabendo desse ocorrido, mas agora acabei de deixar de seguir o Tas, já era para ter feito o mesmo há duas semanas atrás, quando o Nassif descobriu que um assessor da Soninha havia feito inumeros ataques à sua honra no seu blog, na caixa de comentários, e o Tas defendeu o assessor, criticando o Nassif pelos ataques feitos, e defendendo os comentários anônimos no blog do Nassif.
    Só não deixei de segui-lo pois achei que traia meus princípios de não deixar de seguir alguém no Twitter por algo que ele tenha dito, mas defender tropa de choque contra estudantes que ficam do lado dos funcionários e professores em greve é demais para mim, é como aquela frase já clássica do filme Homem Aranha 1: “com grandes poderes vem grandes responsabilidades”. Se você é o cara mais seguido numa rede em um país, não pode sair por aí defendendo medidas ditatoriais dentro de um Estado de direito!

  2. Muito bom, Tulio. Obrigada pela minha citacao.

    Me irritou muito essa historia de que sugerir o unfollow era “fascismo”. Em nome da liberdade de expressao se faz de tudo, mas quando a gente quer expressar a nossa opiniao atraves de um boicote (seja ao Tas ou a Nestle), que e; uma forma legitima de protesto, a pressao e’ imensa.

    Enfim, na verdade, fico triste por isso tudo. A maioria dos comentarios a favor dele foram pateticos, triste ver tanta gente pensando daquele jeito, no Brasil.

    Gostava muito do Marcelo Tas, ha’ uns 20 anos atras, mas nem sabia o que ele andava fazendo e tenho me desapontado com varios comentarios dele, esse nao foi o primeiro. Meu unfollow continua. Nao vale a pena. Que pena.

  3. Nossa…

    Coitado desse marcelo tas.

    Ele já foi um cara legal (quando era o professor Tibúrcio)

    E hoje em dia virou só lixo.

    Pode ele e a Soninha dar a mão e rolar do barranco, porque esse tipo de pessoa pública não serve pra nada.

  4. O Tas chamar os manifestantes de vagabundos é demais, ele deve sim se retratar.

    Agora existe outras formas de se manifestar sem caracterizar desrespeito (Até pq desrespeito gera desrespeito).

    Esse tipo de manifestação é típica de “Chêguedores”, que idolatram a revolução cubana e repudiam o militarismo.
    (Sendo mais de 10 mil mortos no primeiro dia da cubana e menos de mil nos 21 anos de Militarismo no Brasil).

    Meio intelectuais, meio de esquerda. CLAP, CLAP, CLAP.

  5. Até ler aquela frase eu era fã,fã mesmo,do marcelo tas;de muitos anos;andava triste pois estou sem tv e entre outros o cqc era pra mim uma delicia de assistir;coloquei até um video no meu tosco blog com eles.Mas é muito dura a decepção que passei.Como pôde matar em três ou quatro palavras toda uma admiração que eu tinha.Não por ser a favor de pm em campus,que discordo totalmente;mas tenho amigos que têm opiniões completamente diferentes das minhas;a expressão violenta é que me chocou e mantenho o unfollow;não dá pra seguir enquanto as desculpas e a mudança de atitude não forem completas;não foi só o fígado que falou;foi algo mais profundo e eu queria estar errada para não continuar com essa desagradável sensação.

  6. Eu a-do-ra-va o Marcelo Tas. Ficava puto em reportagens como aquela, a primeira do CQC, em que o Danilo Gentili foi expulso do Zoologico por um politicóide do PSDB. Sempre pensei que o Marcelo Tas fosse contra o uso da violência, sobretudo a de motivação reacionária; fato pelo qual cogitei até a hipótese de .

    O que não aconteceu.

    Estou chocado. O unfollow não será só eletrônico, será de coração.

    =(

  7. O @marcelotas Datenou de vez! Daqui a pouco vai passar um videozinho do Datena no CQC, aquele da polícia dos EUA matando pelas costas um cara que estava se entregando – e o careca dizendo “Bem feeeeitooo!!!”

  8. Essa atitude do Prof. Tiburcio não me surpreende nem um pouco. O que me surpreende é ele ter conseguido emplacar um programa tão vazio e sem graça, se passando por inovador e engajado. Ainda bem que a máscara tá caindo.

    Belíssimo texto, parabéns!

  9. Pra nao ser injusto, eu acho o programa engraçado. Mas a graça tá muito mais por conta da genialidade dos caras de que ele se cercou do que pela atuação própria. Os méritos de Danilo Gentili, Rafinha Bastos e Felipe Andreolli são inegáveis.

  10. É impossivel negar que a presença da PM no campus é uma atitude autoritária e descabida, principalmente nas proporções de sua violência.
    Mas não se pode simplismente polarizar a situação, e assumir como justa a violência do outro ponto(um setor de funcionarios e estudantes). Toda forma de violência dentro da Universidade merece repudio, proveniente de onde for.
    Discordo dos que defendem a PM no Capums.
    Discordo dos que defendem uma atitude ostensiva e violenta, do Movimento estudantil e Funcionario.

  11. O direito de greve é a “legitima defesa social”. É o direito de lesar, de causar dano, e, assim, se fazer notar. Essa lesão não pode ser pessoal e física, v.g., não pode ser uma agressão física de um grevista a um transeunte. Também não pode ser material. Pode e deve ser econômica. Um prejuízo econômico e/ou social para todos da comunidade, inclusive usuários, colegas de trabalho, dentre outros semelhantes. Portanto, a greve não foi de maneira nenhuma violenta, a nao ser que voce me prove que algum estudante cortou a garganta de outro com uma faca. Impedir a entrada dos demais estudantes no prédio é direito dos grevistas. Ainda que sejam minoritários.

  12. Olá!

    Eita! Há uma diferença colossal entre o que uma ala de radicais da USP está fazendo (e usar-se a força policial para manter o fucionamento das leis) e a segurança do congresso nacional barrar uma equipe de reportagem.

    E outra, essa frase não é do Voltaire, mas de Evelyn Beatrice Hall.

    P.S: Isso aqui é engraçado:

    “Estudante universitário é contestador por natureza. Estão em pleno vigor da sua capacidade intelectual e crítica. Se o professor não se fizer respeitar no primeiro mês de aula, estará perdido. Nada o salvará do senso crítico de seus alunos.”

    A maioria desses “estudantes” “contestadores” e grevistas da USP possuem um senso crítico que deixa um Bart Simpson no topo da genialidade.

  13. Marcelo Augusto #19,

    Você incorreu em uma incoerência, ou então você não conhece as leis. Porque as leis dizem que, em seu pleno funcionamento, e no pleno funcionamento das instituições, A GREVE É UM DIREITO FUNDAMENTAL DE CAUSAR LESAO ECONOMICA A OUTREM NA SOCIEDADE.

    Bom, e é assim nos países escandinavos, na europa, em todo o lugar. Só no Brasil pré-varguista não se admite o direito de greve. Aliás, repressão penal da greve foi tema de um livrinho do ibccrim…

  14. Grande, Túlio!

    Eu nem sabia quem era Marcelo Tas até começar a segui-lo no Twitter por sugestão do meu filho adolescente!Quase não perco o meu tempo com TV. Prefiro um bom livro de ficção ou ficar no PC lendo somente o que me interessa. Também não perdi o meu tempo vendo o vídeo. Já vi este filme tantas vezes.
    Não perca o seu precioso tempo com este cidadão porque suas “tripas” já estão na frigideira.
    Abraços

  15. Concordo com cada palavra do texto do Prof. Túlio Vianna.

    Nunca segui o Marcelo Tas, nem o conheço, nem pretendia, afinal nem mesmo tenho TV (logo, nunca vi um programa dele). Isso que ele falou conseguiu acabar com o pingo de respeito que eu tinha por ele pelo o que ouço falar que ele faz no CQC, porque mostrou que ele não tem respeito nenhum por mim.

    Para #19 (Marcelo Augusto): Sou estudante de Ciência da Computação na USP, a favor da greve e estava no ato pacífico do dia 9/6 quando a polícia saiu atacando os estudantes por mais de um quilômetro. Por favor me informe o que a “ala de radicais” fez além de cantar para merecer ser atacada por bombas.

  16. em comentário à retratação de tas eu comentei o texto abaixo. preocupa-me que um cidadão como tas não possa pensar alto, mas é bem verdade que ele tem uma responsabilidade enorme, que triunfando a cibercultura, compartilharemos todos. no entanto, me animou vê-lo retratar-se. espero vê-lo intervir no campo e entender as circunstâncias, como espero vê-lo colaborando com os grevistas a dialogar devidamente.
    marcelo tas é um homem, um cidadão. ele pode mudar de idéia quando quiser. não é como a veja, corporativa e mercadológica. um veículo merece todo o unfollow que puder dar-se-lhe. um cidadão merece respeito e diálogo.
    ———
    o recurso à violência cria um mal-estar polarizador e erode a possibilidade de diálogo. é “com o fígado” também que reagem os envolvidos, institucionalizados ou não, presentes ou não. embora seja mais visível, porque fotografável e filmável, a pauta não deveriam ser gritos e socos e confrontos. a universidade sofre uma planejada falta de recursos. o governo vem usando a pm como forma de não-diálogo. currículos adaptados para servir o mercado eficientemente prosperam, enquanto currículos orientados à pesquisa ou à produção cultural sofrem a falta de investimento nacional nestas áreas. abandonar o espaço de diálogo é inaceitável. mas ocupá-lo apenas na superfície não colabora muito, tas. como na estréia da crise econômica na pauta midiática, seria fantástico se um jornalista inteligente como você intervisse, esforçando-se em restaurar o espaço de diálogo e elucidando se, por baixo da greve/repressão, existe um buraco de verdade. é por esperar de você este trabalho que não deixo de lê-lo.

  17. Ok, Túlio, fizeste um belo raciocício.

    Concordo com o que vc disse.

    Mas não darei unfollow no Tas. Ele tem crédito comigo e nenhuma biografia será destruída com uma tuitada — seja cerebral ou figadal.

    Concordar com vc e continuar seguindo o Tas também é democrático.

  18. concordo com o Tas! PM naqueles vagabundos!! a usp é um dos maiores exemplos de desperdício de dinheiro publico dessa merda de país, e os bonitões querem aquela cidade toda sem polícia?? Por que?? Para poderem fumar maconha sossegados??? Ahhh me poupe…

  19. Té, tudo muito bonito, mas e o direito de quem quer ter aula é é impedito?? Quem defende esse direito??
    Vc fez o neu texto o mesmo que o Tas no dele, foi totalmente parcial defendendo a ideia na qual acredita e não analisando a situação como um todo.
    A baderna não é solução para nada.

  20. é bem por aí Cassius! O texto condena o argumento do Tas, mas não analisa po… nenhuma! Apenas tenta defender pseudo-estudantes que estão lá para fazer baderna, usufruir de toda aquela estrutura “na faixa”, aliás, pagos por nós, e ao invés de estudar ficam fazendo greve, festinhas etc… Falo isso pois estou cansado de ver meu dinheiro sustentar as festinhas de cerveja a preço de custo e maconha “à-lá-vonté”.. A maioria, M A I O R I A é tudo vagabundo mesmo!!!!!

  21. Quer dizer… se alguém comete um delito comum, um furto, ou se alguém é preso em flagrante por tráfico de drogas (crime hediondo), vendendo ecstasy, a polícia dá voz de prisão e não bate.

    Agora, se faz greve, tem que bater.

    É realmente de uma coerência explícita!

  22. Não fale besteiras, senhor Túlio. Polícia autoritária? Manifestação democrática? Esses bandidos impedem os alunos de entrar no prédio usando a violência, bandalheira, ameaças, invadem reitoria e perturbam a ordem. PM NESSES VAGABUNDOS! E quem deveria pedir desculpas é o senhor por defender essa gente!

  23. Estudante pode fazer greve; estudante pode fazer badernas, atrapalhaar o transito, interferir na liberdade das outras pessoas; Estudante pode fumar maconha, fortalecer o tráfico; Estudante pode depredar patrimonio público, desrespeitar autoridade… Estudante pode tudo!! Agora quando a polícia distribui meia duzia de cassetadas e joga gas de pimenta, lá vem essa imprensa estúpida pra taxar a polícia de violenta, repressora…. Lamentável!

  24. Essa Flávia é retardada ou analfabeta? E você, Adriano?

    Interromper transito nao é crime, fumar maconha nao é crime (não é punível), depredação de patrimonio publico deve ser apurado em processo com contraditório, e não acatar ordem judicial ilegítima não é desrespeitar autoridade, porque quem tem que dar essa ordem é o TRT.

    Vem cá. TRAFICANTE nao toma porrada, ESTUDANTE tem que tomar? NARDONI nao toma porrada, ESTUDANTE tem que tomar? Acorda mané. Uma coisa é ser de direita e nao gostar de greve, outra coisa é ser nazista e burro.

  25. Podia fazer um texto simplesmente criticando o cara por incorrer em ‘mau gosto’ na sua opinião, já que você não se posiciona em absoluto no tema em questão.

    O direito a greve logicamente existe. Agora não há direito nenhum a obrigar o próximo a aderir a sua greve.

    Se seu “movimento” de greve se resume a alguns professores e alunos pseudo-revolucionários das ciências sociais, talvez seja melhor você rever a sua posição ao invés de tentar engrossar suas fileiras na base da porrada e da intimidação.

  26. Por essa eu não esperava… Mas também, eu nem tenho Twitter e nem o menor interesse em seguir Tas. Detesto o CQC.

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